Após 150 anos, as informações contidas no Livro A Gênese tem significados diferentes para quem hoje lê a obra?

  1. “Absolutamente, se a pergunta encerra a modificação do sentido e do conteúdo da obra.

A Gênese constitui a ponte entre a origem e o destino da Humanidade. A abóbada que emoldura o zênite da Doutrina dos Espíritos.

Parte fundamental e complementar de uma obra que terá repercussão milenar, marcando um novo período axial – o terceiro – como o definiu Karl Jaspers. O primeiro entre os séculos VI e II antes de Jesus, o segundo com Jesus-Cristo, o terceiro, entre os séculos XVI e XIX, com o advento do Espiritismo.”

Edmar Jorge – CFRAT

 Ao analisar o conjunto da Codificação, qual o é o papel de A Gênese?

“Obra complementar e inseparável do chamado pentateuco espírita.”

 Para o senhor, qual o maior mérito do texto?

“Projetar para o futuro os reflexos da adoção do Espiritismo como filosofia de vida.”

Como e quando se interessou pelo livro?

“Desde que iniciamos o estudo da doutrina. É obra que exige leitura, releitura e reflexão.”

Como palestrante, o senhor costuma utilizar informações dessa obra?

“Frequentemente. As questões envolvendo a existência de Deus e da Alma, do bem e do mal, da existência e intervenção dos Espíritos e dos fenômenos considerados extraordinários e “sobrenaturais” encontram na Gênese relevante fonte de consulta.”

Para quem ainda não conhece a obra, o que o senhor diria para incentivar essa leitura?

“Ela é fundamental para a compreensão da Doutrina dos Espíritos.”

Aliás, aparentemente, em comparação com o Livro dos Espíritos e o Evangelho Segundo Espiritismo, principalmente, A Gênese é menos estudada, concorda?

“Não tenho informações suficientes sobre o tema para afirmar ou infirmar a assertiva.”

Quando perguntei sobre a Gênese ser menos estudada, a princípio, quis mencionar o caráter da obra, que é bem científica. Ou seja, não é um tipo de conteúdo de mais difícil acesso em comparação com as outras obras do pentateuco?

  1. “Não considero o conteúdo de mais difícil compreensão ou acesso. Penso que se acha no mesmo nível de dificuldade dos demais, especialmente pelo fato de trazer-nos um Universo inacessível aos sentidos; à verificação empírica – no sentido tradicional e ainda hoje com primazia nas academias, num cientificismo estéril, preconceituoso e excludente – dos fenômenos abordados.”

Gostaria de fazer alguma outra consideração a respeito do livro?

“A Gênese é uma obra de consulta obrigatória e constante para os que desejam conhecer a Doutrina dos Espíritos. A adição de significados, de revelações, a ampliação do conhecimento se dá cumulativamente, a cada releitura.”

Em 1867, por meio de mensagem psicografada, o espírito São Luís declarou que com a Gênese o Espiritismo entra numa fase nova. O senhor pode comentar essa afirmação?

  1. “Mais de uma década após o advento do Livro dos Espíritos, consolidado o ensino moral e religioso – segundo imaginava o espírito comunicante – entendia-se que não havia mais o risco de desvios, entrando assim o Espiritismo numa nova fase, na qual o desenvolvimento científico e filosófico experimentaria novo fomento.”

“Em verdade, a própria Gênese seria alvo de importante desvio, com a inserção de conceitos estranhos e rejeitados por Allan Kardec – dos adeptos de J. B. Roustaing – o que hoje constitui foco de controvérsias entre espíritas e instituições. Instituições que se autoproclamam comprometidas com a pureza doutrinária.”


Obra para uma nova fase do Espiritismo

Em mensagem psicografada de dezembro de 1867, São Luís comenta que “A Gênese” é um livro vocacionado a fazer que o Espiritismo ingressasse numa nova fase. “Esta obra vem a propósito, no sentido de que a doutrina está hoje bem firmada do ponto de vista moral e religioso. Seja qual for a direção que tome doravante, tem raízes muito profundas no coração dos adeptos, para que ninguém possa temer se desvie ela de sua rota”, descreve.

São Luis continua avaliando que ao atributo de consolador, o Espiritismo alia o de instrutor e diretor do espírito, em ciência e em filosofia, como em moralidade. “A caridade, sua base inabalável, dele fez o laço das almas eternas; a ciência, a solidariedade, a progressão, o espírito liberal dele farão o traço de união das almas fortes”, acrescenta.

Publicada em janeiro de 1868 com o título de A Gênese – os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, o texto completou o ciclo das obras da Codificação – após o Livro dos Espíritos, o Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns e Céu e Inferno.

Na introdução, Allan Kardec explica que ela tem como objetivo o estudo de três pontos: a Gênese, os milagres e as predições, em suas relações com as novas leis que decorrem da observação dos fenômenos espíritas.

Segundo Kardec, duas forças regem o universo: o elemento espiritual e o elemento material. “Da ação simultânea desses dois princípios resultam fenômenos especiais que se tornam naturalmente inexplicáveis, desde que se abstraia de um deles, do mesmo modo que a formação da água seria inexplicável se não se levasse em consideração um dos seus elementos constituintes: o oxigênio ou o hidrogênio”, disserta o codificador.

A respeito da relevância da obra, duas mensagens psicografadas à época, endereçadas a Kardec, merecem destaque. Na primeira, o autor espiritual narra: “pessoalmente, estou satisfeito com o trabalho , mas a minha opinião pouco vale, a par da satisfação daqueles a quem ela transformará. O que, sobretudo, me alegra são as consequências que produzirá sobre as massas, tanto no espaço, quanto na Terra”.

A segunda afirma: “está apenas em começo a impulsão que A Gênese produziu e muitos elementos, abalados por ela, se colocarão, dentro em pouco, sob a tua bandeira. Outras obras sérias também aparecerão, para acabar de esclarecer o juízo humano sobre a nova doutrina”.

De fato, os conteúdos de A Gênese provocaram novos estudos e incentivaram importantes pesquisas, livros e tratados. Recorrendo mais uma vez ao espírito São Luís, com ela além de entrar numa nova etapa, o Espiritismo preparou as vias de futuras novas fases, “embora cada coisa deva vir a seu tempo”.