Waldehir Bezerra de Almeida

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Aprendemos com a venerável Joanna de Ângelis que “Tolerância é caridade em começo. Exercitando-a, em regime de continuidade, defrontarás com os excelentes resultados do bem onde estejas, com quem convivas.”[1] Como vemos, não importa a natureza do grupo humano com o qual escolhemos conviver, devemos praticar a tolerância como uma forma de caridade, pois ela é o cimento da união ideal. No entanto, é urgente atentarmos para o que nos previne o pensador Aguarod a respeito dessa virtude, para não ser mal aplicada:

É preciso compreender o alcance da tolerância, para não converter esta virtude, por efeito de má aplicação, numa arma danosa. Tolerância não quer dizer que se reconheça a toda gente o direito de fazer o que lhe apraza, o que melhor lhe pareça, […] A bondade que é mãe da benevolência, o é também da tolerância e, porque o é, deve ser a impulsionadora do Espírito em todos os seus atos e relações com o que existe na Criação. Assim, a tolerância inspirada pela bondade, não olhará indiferente para o proceder alheio, quando este proceder seja incorreto, inconveniente e possa lesar interesse morais e materiais, próprios ou estranhos, individuais ou coletivos.[2] (Grifo nosso).

União, que não será alcançada sem o exercício da tolerância racional, é uma forma de fusão de pessoas onde cada um conserva sua individualidade e relativa autonomia, dentro de uma limitação de direitos, mas todos convergindo para um objetivo comum. O Espírito Emmanuel estabelece as condições necessárias para que se alcance a união fraternal entre nós.

A união fraternal é o sonho sublime da alma humana, entretanto, não se realizará sem que nos respeitemos uns aos outros, cultivando a harmonia, à face do ambiente que fomos chamados a servir. Somente alcançaremos semelhante realização “procurando guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz”.[3]

Da união dos espíritas, praticando-se a tolerância às divergências de cada um, no modo de pensar, agir e sentir, resultará, consequentemente, a Unificação, que é a unidade de ação doutrinária e harmonia administrativa, buscando a vivência dos postulados da Terceira Revelação, trazida pelos Espíritos Superiores ao Codificador Allan Kardec.

Das premissas acima, devemos concluir que para alcançarmos a sonhada unificação se faz necessária a união entre os homens, a união entre os espíritas, pois, sem ela não será possível alcançarmos a Unificação na sua plena manifestação.A difusão e a prática da Doutrina Espírita de forma unificada decorrem da união fraterna, solidária, voluntária, consciente e operacional dos espíritas e das instituições a que pertençam, por meio da convivência programada, quando se darão as permutas de informações e de experiências e, ao mesmo tempo, as ofertas de ajuda recíproca e de proposta do trabalho em conjunto.

Uma forma de se alcançar a unificação do movimento espírita é as Casas se aproximarem uma das outras para executarem juntas projetos que atendam aos seus interesses e ao Espiritismo, com a realização de eventos comuns, onde participem as instituições de uma determinada região geográfica. Os pequenos eventos tornam-se grandes nos seus resultados, quando consequentes da união. Citamos aqui alguns que consideramos estratégicos para promover e fortalecer a unificação: Semana Espírita; Encontro de jovens; Encontro de crianças; Encontro de trabalhadores espíritas de uma determinada Área (evangelização, assistência social, assistência espiritual, estudo sistematizado etc., sem descurar do Encontro dos Presidentes e demais Diretores).

A luta pela unificação do movimento espírita no Brasil tem sua história. Merece nosso respeito o esforço de muitos nesse sentido. Caravanas, congressos, encontros, mensagens e livros são testemunhos do trabalho desenvolvido pela Espiritualidade Superior e por almas devotadas a esse ideal. Compete-nos preservar os resultados já alcançados. Para tanto, é necessário que removamos o cancro da intolerância às divergências em cada um de nós, mal que tem sua gênese, na maioria das vezes, em vidas pregressas e que, de forma sutil, vez ou outra, escapa do nosso inconsciente profundo – do arquivo espiritual –, e se manifesta em nossos gestos, atos e discursos sem que percebamos.

É comum que a nossa linguagem escrita ou falada revele o conteúdo reprimido em nosso íntimo. A intolerância vivenciada por todos nós durante milênios, em nome de Deus e do próprio Cristo, aflora em nós quando alimentamos a pretensa posse da verdade; quando admitimos saber o que é melhor para o outro, e quando nos colocamos como guardiães dos princípios de nossa Doutrina, agindo com severidade com aqueles que ainda não assimilaram a grandeza do seu tríplice aspecto.  

Não raro, pessoas bondosas, respeitáveis pela sua folha de serviços a favor da Doutrina, deixam escapar de maneira sutil – como afirmamos acima –, em suas manifestações, uma nota de intolerância. São traídas pelo inconsciente. (Informo ao caro leitor que estou me policiando nestas linhas para não deixar emergir o ranço da intolerância que, sem dúvida, insiste em assumir o meu ego e se manifestar).

Há, por exemplo, quem declare – na defesa justa da necessidade do estudo doutrinário – não entender que alguém possa ser espírita sem conhecer, além das obras básicas, os clássicos da literatura do Espiritismo, esquecendo-se que esse alguém para ser espírita não precisa ser letrado, pois o que será dos analfabetos, dos não-habituados à leitura de maciços volumes e daqueles que não têm condição financeira que lhe permita comprar livros e organizar uma biblioteca?

Já ouvi palestrantes enfatizarem que aqueles que se dizem espíritas e não fazem o culto do Evangelho no lar ou que não leem o Evangelho segundo o espiritismo todas às noites, antes de dormir não podem se declarar espíritas! Allan Kardec, com a tolerância que lhe era peculiar, foi universal, não se prendeu a detalhes pessoais e esculpiu na mente de todos nós: “[…] Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más […]”. [4]

Não devemos esquecer, portanto, que a construção e preservação da unidade do movimento espírita entre as Casa espíritas exigem tolerância às divergências de como cada uma delas vivencia a Doutrina espírita. Os nossos registros perispirituais revelam experiências distintas ao longo das variadas reencarnações, quando valorizamos práticas exóticas e assimilação de teorias não condizentes com a Terceira revelação. Não é por outra razão que o Missionário de Lyon conclama os centros espíritas a se unirem para o combate aos adversários inconscientes, com as armas do amor:

[…] O Espiritismo é uma questão de fundo; prender-se à forma seria puerilidade indigna da grandeza do assunto. É por isso que os centros que se acharem penetrados do verdadeiro espírito do Espiritismo deverão estender as mãos uns aos outros, fraternalmente, e unir-se para combater os inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo.[5] (Grifo nosso).

A tolerância não deve ser falsa, como a do orgulhoso que se supõe infalível e adota um silêncio compassivo em face de todos os que não adotam o seu modo de pensar ou de agir. A verdadeira tolerância é humilde, mas convicta. Respeita as ideias e condutas dos demais, sem desprezá-las, mas também sem minimizar as diferenças, porque tem a certeza de que o apreço é indispensável para o diálogo e para criar um clima necessário a uma colaboração no nível elevado dos grandes objetivos comuns.

A tolerância no âmbito da instituição e do Movimento espírita, não se baseia no falso princípio de que tudo o que se pratique dentro dos dois campos seja correto, sem levar em conta os ensinamentos dos Espíritos Superiores e o respeito ao próximo.

Há quem apregoa que se deve ter tolerância zero com as Casas espíritas que adotam técnicas variadas na aplicação do passe além da simples imposição das mãos, desconsiderando que os Espíritos praticam os dispersivos e longitudinais no invisível, e que até inspiram médiuns do nosso plano a procederem assim, como no caso de uma enferma que foi atendida em determinado Centro pela médium passista Clara, quando Espírito “Conrado, impondo a destra sobre a fronte da médium, comunicou-lhe radiosa corrente de forças e inspirou-a movimentar as mãos sobre a doente, desde a cabeça até o fígado enfermo.” [6] Como vemos, necessitamos aprender muito com os Espíritos Superiores pelo meio do estudo sério e continuado.

É comum, quando na defesa de nossas opiniões a respeito de pontos divergentes no Movimento espírita, usar o argumento da autoridade de Jesus, dizendo que ele não foi complacente com os hábitos e a hipocrisia dos escribas e fariseus. Entretanto, considerações devem ser feitas a essa argumentação, no mínimo, descaridosa:

1º – Jesus conhecia a verdade absoluta das coisas que ensinava e combatia. “Eu sou o caminho a verdade e a vida” – disse O Mestre Jesus, que conhecia a verdade absoluta.

2º – Não é justo comparar um irmão espírita, imbuído de boa vontade, vivenciando o amor, doando seu tempo à caridade e respeitando os postulados básicos do Espiritismo com um fariseu hipócrita, somente porque diverge na forma em alguns procedimentos na prática da Doutrina.

3º – Jesus foi tolerante, sim, com os crentes sinceros e não combateu descaridosamente seus hábitos religiosos. Um exemplo primoroso – e somente um cremos seja o bastante -, temos em Mateus, Capítulo 5, versículos 23-24, em que o Nazareno ensina ser mais importante que a oferta material a Deus, feita no altar, a reconciliação com o irmão insatisfeito. Mas não condenou a formalidade da oferta, orientando que ela fosse feita depois. Foi amoroso e compreensivo, importando-se, acima de tudo, com a intenção e não com a forma.

Importante é distinguirmos unidade de princípios doutrinários de uniformização do movimento espírita. Faz essa distinção Deolindo Amorim, com sua lucidez ampliada após liberto do corpo físico:

A unidade deve ser estabelecida sobre princípios, e não sobre nuanças, detalhes, técnicas e processo. Isto seria estiolar o próprio Espiritismo que em si é dinâmico. […] busca-se a unidade onde ela não pode encontrar-se, porque os próprios Espíritos, mesmo aqueles que convivem numa mesma comunidade espiritual, utilizam de procedimentos diversos no desempenho de suas funções, do que naturalmente resultará em diferenças nas manifestações e em suas recomendações. O pensamento diferente não significa divergente, é bom que se diga. Portanto, podemos chegar a uma segunda conclusão – a unidade da Doutrina deve ser buscada na concordância dos princípios gerais.” [7]

Na crítica às práticas diferentes daquelas que adotamos em nossa instituição, mas aceitas por outras coirmãs, devemos humildemente admitir que

[…] A verdade absoluta é prerrogativa de Espíritos da categoria mais elevada e a Humanidade terrena não poderia pretender possuí-la, porque não lhe é dado saber tudo. Ela somente pode aspirar uma verdade relativa e proporcional ao seu adiantamento […].” [8] 

Não devemos, portanto – repetimos –, confundir unidade de princípios doutrinários com uniformização do movimento espírita, pois esta última é uma prática contrária à Natureza, considerando que somos e seremos sempre diferentes um do outro. O Bom senso encarnado, no dizer de Camille Flammarion, dissertando sobre o Movimento espírita e as possíveis diversificações da prática do Espiritismo, no seu tríplice aspecto, afirma com ar de profecia:

Assim será com o Espiritismo organizado. Os espíritas do mundo inteiro terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo laço sagrado da fraternidade, mas cuja aplicação poderá variar conforme as regiões, sem que, por isto, seja rompida a unidade fundamental, sem formar seitas dissidentes que se atirem a pedra e o anátema, o que seria antiespírita, de saída.[9]

 Com este sábio ensinamento do Codificador encerramos nossa dissertação.


[1] FRANCO, Divaldo P. Convites da vida. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2. ed. Salvador: Leal, 1972. Cap. 56 – Convite à tolerância.

[2] AGUAROD, Angel. Grandes e pequenos problemas. 7. ed. 1 reimp. Brasília: FEB, 2006, cap. 4, item I.

[3] XAVIER, Francisco Cândido. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. 9. imp. Brasília: FEB, 2015. Cap. 49 – União fraternal.

[4] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2018. Cap. 17, it. 4.

[5] ______. Obras Póstumas. Trad. Evandro Noleto. 2. ed. 1.imp. Brasília: FEB, 2016. Pt. 2, cap – Constituição do Espiritismo – It. VI – Amplitude de ação  da comissão eleitoral.

[6] XAVIER, Francisco C. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 36. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2015. Cap. 17 – Serviço de passes.

[7] SOUZA, Elzio F. Espiritismo em Movimento. Pelo Espírito Deolindo Amorim. 1.ed. Salvador: CIRCULUS, 1999. Cap. 19 – Divergências e coerência.

[8] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 7. imp. Brasilia: FEB, 2018. Cap. 15, ít. 9.

[9] ______. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano11, n.12.  dez. 1868. Constituição transitória do Espiritismo, cap. IX Conclusão. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2010.